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Lauda Japão 1976

Lauda com a Ferrari 312T2 (câmbio transversal) em Fuji Yama 1976

Uma vitória pode ser lembrada por uma largada sensacional,  ultrapassagem ousada ou, até, pelo pódio. Embora Niki Lauda tenha todas essa façanhas na carreira de tricampeão, eu acho que a sua maior vitória foi marcada pelo beijo. Ou melhor, por dois beijos. O primeiro no sopé do monte sagrado de Fuji Yama, em 24 de outubro de 1976. Lauda e James Hunt iam decidir o título mundial, no GP do Japão, com a vantagem de três pontos para o austríaco. Um temporal atrasou a corrida em quatro horas e mesmo assim largou sob um temporal. Para espanto do mundo, Lauda tocou a Ferrari para a borda da pista facilitando todas as ultrapassagens e, três voltas depois, parou deixando o caminho livre para James Hunt tornar-se ,campeão.

Saiu do carro cercado por jornalistas italianos ansiosos por uma explicação. “ Paura”, gritou e foi  fazer companhia a sua mulher no alambrado. Marlene levantou os olhos e deu um demorado beijo no marido.

Os poucos que prestaram atenção na cena sentiram que era um beijo diferente. Nem protocolar, nem de paixão, foi o beijo da cumplicidade. Um carinho de mulher apaixonada que entendeu a renúncia ao bicampeonato e não se envergonhou de ver o seu super-homem amedrontado.

Mas o mundo não dava opção a Lauda. O rosto desfigurado pelas cicatrizes do terrível acidente no GP da Alemanha, 85 dias antes em Nürburgring, não era atenuante para o seu gesto.Queriam na pista de Fuji Yama o audaz moribundo que expulsou do quarto do hospital o padre chamado para dar-lhe a extrema-unção. – Eu preciso de médico não de padre -, sussurrou na ocasião.

Para os fanáticos tifosos da Ferrari, Lauda tinha que ser invulnerável. O piloto  que apenas três corridas depois do coma, voltou à pista em Monza, conquistando um heróico quarto lugar no GP da Itália. Lauda decepcionou pela coragem de confessar o medo de competir no dilúvio do GP do Japão. Uma sinceridade que o pragmático Mario Andretti, vencedor da corrida, desprezou gabando-se que pelo título mundial competiria até no nevado pico do monte Fuji. – Sou piloto não poeta – identificou-se, Andretti.

Eu que também não sou poeta entendi melhor Andreas Nikolaus Lauda quando Danielle Audetto, então chefe de competições da Ferrari, me apresentou o cidadão. Lauda era outro homem depois de Nürbrugring. Mais sensível, ele vê beleza no canto dos pássaros, assobia Bach, cultiva rosas vermelhas e fotografa o pôr do sol.

Um ano depois, no domingo de 11 de setembro, com a mesma Ferrari e em plena Monza, Lauda coroou-se bicampeão antecipado. Tinha 24 pontos a mais que Jody Scheckter (69 a 45), faltando dois GPs para encerrar a temporada de 1977.

Mas havia pouca emoção no seu rosto marcado pelo fogo. Só uma hora depois da festa, no reservado da Ferrari, eu vi Lauda sorrir ao receber um beijo de Marlene. Lembrei-me da cena de Fuji Yama e novamente percebi a cumplicidade naquele beijo. Mas desta vez fiquei em dúvida quanto ao requinte: seria de vingança ou de perdão?  (LM)

 

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