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Schumacher Bélgica 1992

Schumi, uma vitória sem comemoração

Pela terceira vez nas três primeiras corridas do ano, Ayrton Senna largava na pole position e ao lado de Michael Schumacher (Benetton-Ford). De manhã, durante o habitual briefing dos pilotos, ele fez duras críticas à pista. Estava contrariado com a ausência de Rubinho Barrichello na corrida, causada pelo forte acidente de sexta-feira, e ainda chocado com a tragédia que matou o austríaco Roland Ratzenberger (Sintek-Ford), no sábado.

Senna largou bem, assumiu a ponta e foi livrando boa vantagem em relação a Michael Schumacher. Na sétima volta, a direção do Williams-Renault FW16 não obedeceu ao seu comando e foi direto contra o muro da curva Tamburello. A corrida foi interrompida e reiniciada para completar 51 voltas, descontadas as sete já percorridas. Venceu Michael Schumacher, seguido de Nicola Larini (Ferrari) e Mika Hakkinen (McLaren-Peugeot).

  Três semanas antes do nosso embarque para o GP de San Marino, a gente se encontrou na sede da Senna Empreendimentos, para a quarta e última rodada de perguntas e respostas do perfil que eu estava preparando para a Revista Playboy.

— Bom, espero que esta seja a última da série — me disse em tom de enfado pouco convincente.

— Depende da tua objetividade — respondi.

 E ele, com o costumeiro hábito da tréplica, emendou:

— Nós já falamos tanto sobre mim, Fórmula 1, namoradas, sexo, dinheiro, inimigos, amigos, guerra e Deus… — fez uma pausa —, que acho que você tem material até para aquelas biografias não autorizadas.

— Não — provoquei. — Acho que você está guardando muito segredo para a sua biografia autorizada.

   — Um livro?

 Senna coçou o queixo, riu como se lembrasse de alguma coisa em particular e falou com visível propósito de me intrigar:

— Eu não posso abrir inteiramente o jogo. Se contar coisas da minha vida profissional, posso provocar um reboliço no circo sem nenhum resultado positivo.

— Por exemplo?

— Ah, detalhes de negociações, bastidores. Armações de pilotos, chefes de equipes. Coisas que tornam a Fórmula 1 uma fogueira de vaidades, que nutrem muitos egos e queimam bons propósitos. Se abrir a minha alma, exponho meus sentimentos, vão querer mudar minha maneira de pensar e ser, sobre coisas que só a mim interessam.

Ayrton volta à pausa. Sacode a cabeça como se estivesse afastando pensamentos que quase revelou; me encara, ri de novo e volta à entrevista.

— Bom, vamos às perguntas.

— Mas você tem intenções de escrever um livro?

— Eu sou piloto, não sou escritor.

Refaço a provocação.

— Então você vai pilotar o livro da sua vida? — Valeu a provocação.

— Talvez. Acho que eu poderia colaborar com o automobilismo, passando alguma coisa da minha experiência. Alguma herança profissional. Mas ainda não decidi nada. Por enquanto, vamos a esse “teu livro”.

O perfil saiu publicado na Playboy de março, com parte da vida de Ayrton Senna, mas, infelizmente, ele não teve tempo de pilotar a sua herança.

Na súmula do grande prêmio, a Federação Internacional de Automobilismo registrou a seguinte nota de pé de página:

 

“Ayrton Senna, Brasil, Williams-Renault, morreu na sétima volta. A corrida foi interrompida e teve nova largada para 51 voltas”.

Oficialmente, Ayrton Senna morreu no Hospital Maggiore, de Bolonha, convenientemente para os cartolas, depois que o GP de San Marino havia terminado.(LM)

 

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