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1o maio de 1994

GP de San Marino

Imola

Itália

Senna San Marino 87

A largada do GP de San Marino 1994

Nunca houve um pódio tão triste como o do GP de San Marino daquele 1o de maio de 1994. O acordes marciais hino nacional da Alemanha soava como a marcha fúnebre. E Michael Schumacher, Nicola Larini e Mika Hakkinen, os vencedores, cabisbaixos, não sabiam onde por as mãos. Não houve champanhe e o alarido normal do burlesco Autódromo de Ímola virou um pesado silêncio. Eu  fotografa mecanicamente desde que foi dada a segunda largada após o desastre de Ayrton Senna na traiçoeira curva Tamburello. A cada volta da corrida eu esperava pela passagem do Williams de Senna, num recurso inconsciente de negar a morte que só dependia do comunicado oficial.

De repente lembrei do dia anterior, quando Ayrton  saía do motorhome da Williams para os treinos, me viu, fez um sinal amistoso e disse: “Preciso falar com você, depois”

O assunto, pensei, tinha algo a ver com a reportagem que eu fiz para Playboy, na qual Senna abrira muito da sua intimidade. Não era. Já havíamos comentado a matéria, mas também fiquei curioso.

Não falamos naquele sábado. A morte de de Roland Ratzemberg nos treinos transtornou Senna. Ele foi até o local do acidente, na curva Villeneuve, examinou as marcas deixadas pelo Sintek-Ford do piloto austríaco e deixou claro a desaprovação do circuito. Os cartolas não gostaram da sua atitude e o advertiram ameaçando com punições. Contrariado, Senna cumpriu o ritual da entrevista coletiva obrigatória do pole position e deixou o Autódromo Enzo e Dino Ferrari em silêncio

No centro de imprensa, depois da corrida, 213 jornalistas enviavam, nos intervalos da redação de epitáfios de Ayrton Senna, detalhes sobre a vitória de Michael Schumacher. Eu recebi os mais estranhos gestos de solidariedade. Alguns repóteres, que me conheciam da Fórmula 1 há 25 anos, na falta de melhor recurso, me davam pêsames antecipados, dissimulando o motivo da abordagem. Como sabiam que eu acompanhei a carreira de Senna desde o kart pediam, solenes, fatos exclusivos da vida do piloto.

Recebi ofertas à queima roupa para free lancer, depoimento especial de vários jornais, TV e o convite, bem remunerado, de uma revista japonesa, para gravar minhas memórias sobre a carreira de Ayrton Senna. Era impossível. Eu vivia a experiência difícil do luto pessoal e da utilidade pública, sem conseguir controlar a emoção da perda do amigo nem manter a frieza da função de repórter.

Ás 17,45 h, de Ímola, veio o anúncio oficial do  Hospital de Bolonha: Ayrton Senna da Silva tinha morrido. A sala de imprensa ficou mais nervosa, o caminho entre circuito e o hospital virou procissão, e eu desejei estar cobrindo um torneio de bridge.

Dois dias depois, aquela frase de Ayrton antes da pré-classificação, “ Eu preciso falar com você”’ ainda  estava viva na minha lembrança.

Ai lembrei-me da voz de barítono do signore Montanha, o decano e protocolar capo de stampa de Monza. Ele apertou o meu braço na escadaria de Ímola e disse despedindo-se num tom clérigo de pregador: “Lamente mas não chore a partida do Ayrton. Ele tinha provado tudo, não havia mais nada a fazer por aqui”.

E agora ainda soam bem as palavras do Montanha: “Ele não tinha mais nada a fazer por aqui”. (LM)

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