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Seanna e Berger Japão 1991

 Ayrton e Berger no pódio do Japão de 1991

Poucas vezes quatro pilotos entraram na pista com táticas tão decoradas. O primeiro capítulo era a conquista da pole position e os participantes eram Senna e Mansell, como atores principais, e Berger e Patrese, como coadjuvantes. Valia o título mundial e a superação de cada um era atributo lógico.

A McLaren ganhou o primeiro rounde dos Williams-Renault. Berger foi pole position, Senna ficou em segundo, Mansell em terceiro e Patrese foi batido por Alain Prost (Ferrari), colocando-se em quinto.

Definida as posições do grid, vinha o segundo capítulo: o jogo de equipe. Se a largada fosse normal, Senna não tomaria a ponta, os pilotos da McLaren iam tentar manter a ordem: Berger deveria liderar e Senna ficaria em segundo, obstruindo qualquer tentativa mais arrojada de Mansell. Era notório na Fórmula 1 que o inglês destemperava-se quando submetido à pressões e, enervá-lo, obrigando-o a ultrapassar Senna, era a primeira provocação.

Bem pensado e melhor feito. Saiu tudo de acordo com o figurino: Berger liderava, Senna amansava o Leão. Depois deles, havia uma outra corrida, a do prêmio de consolação, protagonizada por Alain Prost, Ricardo Patrese, Nelson Piquet (Benetton-Ford), Martin Brundle (Brabaham-Yamanha) e Stefano Modena (Tyrrell-Honda).

A batalha não demorou mais de nove voltas. Nigel Mansell resolveu arriscar tudo e tentou chegar em Senna no final da reta dos boxes a 295 km/h. O brasileiro tomou a curva, e o inglês, surpreendido com a perda do vácuo, descontrolou-se e perdeu-se na poeira da zona de fuga.

Terminava ali, aos 15min59s421/1000 de corrida, a disputa pelo título mundial da Fórmula 1 de 1991. O Leão estava nocauteado e Ayrton Senna era tricampeão.

Com uma tonelada a menos sobre os ombros, Ayrton acomodou-se no banco e felicitou-se: “Afinal, aquela era a oportunidade que eu tanto esperei para me divertir e continuei correndo para vencer, sem maneirar, de pé no fundo, como eu gosto de pilotar”.

Já tricampeão Senna partiu para a diversão. Ultrapassou Berger na 18a volta e acelerou. Fez a volta mais rápida na 31a e, quando cruzou o boxe na 52a, recebeu a placa que avisava que entrara na última volta. Queria mais, porém, em seguida ouviu a voz grave de Ron Dennis pelo rádio de bordo. Senna não compreendeu a mensagem e pediu ao patrão que a repetisse. Mesmo sem clareza entendeu que deveria trocar de posição com Berger, que vinha em segundo. Aí resolveu deixar o Gerhard passar.

Mas o que Ayrton Senna só confessou bem depois é que foi muito difícil renunciar à vitória. Se dissesse que não tinha ouvido ou entendido o apelo do Ron Dennis, todos acreditariam, porque o rádio estava quase inaudível. O próprio Dennis admitiu que havia muita interferência no retorno de Senna. Mas como os diálogos via rádio são feitos meio na base de códigos, para não desconcentrar o piloto, seria suspeito que logo aquela sugestão não fosse entendida.

Foi a primeira vez que Senna abdicava de um triunfo. Por isso, naquele instante, o seu estupendo reflexo bloqueou. O cérebro queria dar a ordem, o coração implorava o contrário e o pé teimava em acelerar mais e mais. Enfim, Ayrton topou violentar-se. Cutucou o freio, aliviou o acelerador, sentiu-se apunhalado, mas deu a vitória ao companheiro. Depois, para se consolar, admitiu: “Berger fez uma bela corrida e merecia a vitória tanto quanto eu”.

 “Já tive muitos momentos felizes na minha carreira”, disse Senna no seu depoimento. “A conquista do primeiro título, em 1988, ou a emoção incrível da vitória em Interlagos este ano. Agora, este terceiro título é muito especial, conquistado em uma luta limpa e justa contra um carro melhor que o meu. Enfim, a melhor temporada de todas que participei.

No dia seguinte, Ayrton, ainda entre feliz e assustado com a grande conquista, me confessou: “Eu não me sinto o maior ídolo brasileiro. Não me sinto uma pessoa tão importante para merecer uma festa durante a noite toda no Brasil. Mas se Deus me deu a felicidade de ser tricampeão do mundo e isso traz alegria a tanta gente, é mais por vontade dele do que obra nossa”.  (LM)

 

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