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Memórias

Memórias de Fotos de Lemyr Martins

 

 Senna GP da Inglaterra 1988

Senna no pódio do de Suzuka  do 1º título mundial

Gugelmin ainda têm arrepios ao recordar o episódio que protagonizou no GP do Japão de 1988, na corrida em que Ayrton Senna ganhou o primeiro título mundial. Senna era o pole-position, porém teve problemas na largada e só partiu em 16º, mas teve uma estupenda recuperação e venceu a prova e o campeonato.

O que só Gugelmin sabia é que ele não tirou Senna daquela corrida por milagre, e ainda hoje ele toma fôlego para contar a história.

“Eu fui o décimo dos 16 pilotos que o Ayrton ultrapassou. Lembro que vi a fera se aproximar pelo retrovisor e me preparei para lhe dar passagem. Pensei: vou dar uma cutucada no freio, o Ayrton passa por dentro e eu ainda aproveito o vácuo do McLaren dele. Pensei e fiz. Mas o pedal do freio endureceu, ficou sem curso e eu não consegui segurar o March. Fomos juntos para a tomada da curva. No desespero, e para evitar a batida, tirei o pé do acelerador, o que àquela altura era a única hipótese de não acontecer o choque. Nem me dei conta de que desacelerando bruscamente, os carros que vinham atrás poderiam pegar meu March-Judd em cheio. Mesmo assim tirei o pé, mudei o traçado e o McLaren passou raspando roda dianteira do meu carro”.

Gugelmim segue o relato admitindo que ainda hoje essa cena lhe dá  frio na barriga.

“Imagine se as rodas se tocassem? Seguramente ele decolaria com o McLaren e eu não sei se estaria aqui para contar essa história. Muita coisa poderia ter terminado naquele segundo e tudo por causa de uma ridícula barbeiragem de boxe.

Aconteceu é que um mecânico babaca fixou mal a garrafinha com o líquido hidratante, aquele que os pilotos levam no cockpit para beber, através de um tubo, durante a corrida. A garrafa se soltou e caiu no meio das minhas pernas. Bem que tentei segurá-la, mas ela escorregou e se alojou entre o pedal do freio e o assoalho do carro, obstruindo a freada, exatamente no momento da aproximação do Ayrton. Ninguém acreditaria nessa história se tivesse acontecido a batida e o Senna perdesse  seu primeiro título mundial.

A Fórmula 1 é isto: tanta tecnologia, tanta sofisticação eletrônica, mas basta uma volta a menos num parafusinho para mudar – como já mudou – o resultado de corridas e até de campeonatos”. (LM)

 

 

 

 

Lauda Nurburgring 76

 Lauda com a Ferrari nos treinos de Nurburgring 1976

Niki Lauda, campeão em 1975 com a Ferrari, esteve desenganado pelos médicos após um terrível acidente que sofreu em Nürburgring, no GP da Alemanha de 1976.

Lauda foi internado no hospital com o crânio fraturado e o rosto deformado por queimaduras de vários graus, mas, num raro momento de lucidez, se recusou a receber a extrema-unção. “Eu preciso de médicos, não de padre”, protestou o piloto.

E tinha razão, porque 39 dias depois ele voltou a correr e se classificou em quaro lugar no GP da Itália, em Monza. Lauda ainda disputou o título de 1976 até a última corrida, a do GP do Japão, na qual se retirou por causa do temporal que desabou no circuito de Monte Fuji.

James Hunt, terceiro na corrida, foi o campeão com a vantagem de 1 mero ponto à frente do austríaco, 69 a 68. Mas Lauda, — a quem os italianos chamavam de “querido Frankenstein” –, ainda ganhou mais dois títulos: foi bi pela Ferrari, em 1977, e tri pela McLaren-TAG, em 1984. Consagrado, retirou-se em 1985. (LM)

 

 

Lauda espanha 74

 Lauda, com Regazzoni e Emerson, no pódio de Jarama, Espanha  

Luca di Montezemolo, então diretor esportivo da Ferrari, causou surpresa geral quando anunciou que seus pilotos para 1974 seriam Clay Regazzoni e Niki Lauda, Não por Regazzoni, um piloto já experiente, mas por que Lauda? Afinal, aquele austríaco de 25 anos não fora um fenômeno nas fórmulas menores e também não brilhou em seus dois primeiros anos na Fórmula 1. Tinha estreado a bordo de um March-Ford 711, no GP da Áustria de 1971, e disputado o campeonato de 1973 pela BRM, sem fazer nada de notável além de um discreto quinto lugar no GP da Bélgica.

Aí surge Montezemolo, dá aura de primeiro piloto àquele austríaco caladão de dentes incisivos à mostra e profetiza: “Ele vem para a Ferrari para ser campeão”. O circo então ficou de prontidão, à espera da resposta de Andreas Nikolaus Lauda.

Já na terceira corrida, com a Ferrari 312B3, no GP da África do Sul, Lauda fez a volta mais rápida e marcou a primeira das nove pole positions conquistadas nos 15 grandes prêmios de 1974. Era um indício de que a Ferrari tinha acertado na aposta, e o primeiro grande momento do jovem austríaco ia acontecer no GP da Espanha, em Jarama, na 30ª corrida de sua carreira.

Niki Lauda fez tudo o que era possível: pole position, volta mais rápida, e consagrou a primeira vitória numa corrida perfeita. No pódio, ao lado de Clay Regazzoni e Emerson Fittipaldi, o austríaco parecia criança. Assediado por um batalhão de jornalistas italianos, Niki tinha dificuldades em reproduzir os detalhes daquela primeira vitória que, para ele, parecia uma façanha simples. Elogiava a máquina, agradecia o trabalho dos boxes, com deferência especial ao carismático Hermano Coghi, seu mecânico-chefe e decano na Ferrari. A festa foi longa e Lauda suportou tudo olimpicamente: posou para centena de fotos, foi paciente nas entrevistas, curtindo o primeiro triunfo com risos e incisivos à mostra, como se os dentes não lhe coubessem na boca.

A profecia de Luca di Montezemolo seria questão de tempo: Niki Lauda se transformou no homem-computador da F-1 pela regularidade da pilotagem. Foi tricampeão mundial, venceu outros 24 grandes prêmios e o triunfo se tornou uma rotina em sua vida, a ponto de na 25ªvitória, o GP da Holanda de 1985, ele sequer  compareceu no pódio.(LM)

 

 

Senna 1993 Mônaco

Poucos ficaram sabendo do convite e do verdadeiro motivo de Ayrton Senna não ter ido para a Ferrari, em 1993. Três dias antes do GP da Hungria de 1992, ele foi procurado por Niki Lauda, que, a pedido de Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari, pretendia contratá-lo para temporada seguinte.

Só no fim de 1993, logo após ter assinado com a Williams, Senna me contou por que frustrou o sonho de competir pelas máquinas do comendador Enzo Ferrari.

Ele revelou que Lauda abriu o jogo. Lamentava não poder prometer um carro vitorioso já em 1993, mas garantia que Senna seria um “deus” na Ferrari e que o projeto da gestione sportiva de e Maranello previa ganhar o campeonato de 1994.

Ayrton vinha competindo num McLaren limitado, em relação aos Williams-Renault de suspensão ativa, e não pretendia ficar mais uma temporada sem chance de lutar pelo tetracampeonato. E, como já tinha mantido um contato com a Williams, resolveu não trocar a aventura na Ferrari pela certeza de ter um carro competitivo e resolveu “dar um tempo”.

Deu certo. Alain Prost anunciou sua aposentadoria no GP de Portugal de 1993, ao garantir o título de tetracampeão por antecipação e Ayrton Senna saiu da McLaren para a Williams na temporada de 1994. O restante da história o mundo conhece e lamenta.

Poucos ficaram sabendo do convite e do verdadeiro motivo de Ayrton Senna não ter ido para a Ferrari, em 1993. Três dias antes do GP da Hungria de 1992, ele foi procurado por Niki Lauda, que, a pedido de Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari, pretendia contratá-lo para temporada seguinte.

Só no fim de 1993, logo após ter assinado com a Williams, Senna me contou por que frustrou o sonho de competir pelas máquinas do comendador Enzo Ferrari.

Ele revelou que Lauda abriu o jogo. Lamentava não poder prometer um carro vitorioso já em 1993, mas garantia que Senna seria um “deus” na Ferrari e que o projeto da gestione sportiva de e Maranello previa ganhar o campeonato de 1994.

Ayrton vinha competindo num McLaren limitado, em relação aos Williams-Renault de suspensão ativa, e não pretendia ficar mais uma temporada sem chance de lutar pelo tetracampeonato. E, como já tinha mantido um contato com a Williams, resolveu não trocar a aventura na Ferrari pela certeza de ter um carro competitivo e resolveu “dar um tempo”.

Deu certo. Alain Prost anunciou sua aposentadoria no GP de Portugal de 1993, ao garantir o título de tetracampeão por antecipação e Ayrton Senna saiu da McLaren para a Williams na temporada de 1994. O restante da história o mundo conhece e lamenta. (LM)

 

A largada para os recordes

Schumacher Espanha 1992

A primeira vitória de Michael Schumacher foi a mais anunciada da Fórmula 1. Tão iminente que quando ele chegou a Spa-Francorchamps, para disputar o GP da Bélgica de 1992, deparou com uma enorme faixa, bem em frente ao seu boxe: “Schumi, vença essa corrida para nós”, assinada por seus conterrâneos de infância da cidadezinha de Hürth-Hermülheim.

O pedido dos amigos do piloto baseava-se nos ótimos resultados do alemãozinho de 23 anos, na sua primeira temporada completa na Fórmula 1, a bordo de um Benetton. Até aquela 12ª corrida do ano, Schumacher tinha subido sete vezes ao pódio; três em segundo e quatro em terceiro, além de outros três quarto lugares.

Porém, aquela não seria uma prova fácil para o alemão. Ele tinha colocado o Benetton-Ford B192 em terceiro no grid de largada, mas para chegar à primeira vitória teria que bater monstros sagrados da época; Nigel Mansell, com o extraordinário Williams FW14B de suspensão ativa, era o pole-position e tinha na primeira fila a companhia do tricampeão Ayrton Senna com o McLaren MP4-7A.

A corrida foi disputada sob variada intempérie. A largada foi dada com pista seca, que acabou molhada, primeiro por uma garoa fina que engrossou, transformou-se chuva e fechou a prova com espessa neblina.

Michael Schumacher não saiu para a briga nas primeiras voltas, manteve-se na terceira posição seguindo o ritmo de Senna e Mansell, que duelavam à sua frente.

Quando o motor V12 Honda do brasileiro perdeu potência, Schumacher assumiu a vice-liderança para, numa belíssima manobra, ultrapassar Nigel Mansell na 31ª das 44 voltas da corrida. Aí o autódromo entrou em suspense, mas quando o alemão cruzou a bandeirada Spa-Francorchamps explodiu em festa.

Schumacher festejou o primeiro triunfo criando um estilo épico no pódio. Aos pulos e socos no ar, ele comemorou a façanha, num desvario de risos e lágrimas – é, alemão também chora. Soqueou o ar, agradeceu aos céus e gozou a primeira vitória num estado bem próximo da levitação.

Já consagrado como Schumi, ele partiu para Hürth-Hermülheim, sua vila natal, à frente de uma caravana organizada pelo séqüito da Schumimania, enquanto outros 50000 alemães comemoravam a vitória em Spa-Francorchamps, dispostos a acabar com a cerveja das Ardenas belgas. Naquele 30 de outubro de 1992, na 17ª corrida de Michael Schumacher no 528º grande prêmio da existência da F-1, nascia o supercampeão, que festejaria 91 vitórias e se transformaria no maior recordista da história da Fórmula 1.

 

 

Prost 89

Prost Williams 1993

Prost, om o McLaren-Honda e o Williams do tri e do tetracampeonato

Alain Prost, tetracampeão, gênio ao volante, não conseguiu o mesmo sucesso como construtor. Sua escuderia sucumbiu por falta de um ingrediente definitivo no automobilismo: patrocínio. O francesinho teimou durante cinco anos, de 1997 a 2001. Seus carros competiram em 83 grandes prêmios e entre os dez pilotos que guiaram suas máquinas estavam os competentes Jean Alesi, Olivier Panis, Jarno Trulli e Heinz-Harald Frentzen. A escuderia Prost marcou 35 pontos, mas também não resistiu à falência.

 

 

o adeus de von Trips, herói alemão

Von Trips Monza 1961

A Ferrari de Von Trips, antes  e depois do acidente em Monza 1961Von Trips Monza 61

Wolfgang von Trips foi um conde alemão que competiu com o pseudônimo de Graf Berghe, para se esconder da oposição familiar, totalmente contra as corridas de automóveis. Ele competiu em 27 grandes prêmios pela Ferrari, entre 1957 a 1961, e foi o primeiro piloto germânico a vencer grandes prêmios de F-1 – quatro no total – e a chegar à decisão de um título mundial nos primeiros 45 anos da categoria.

Von Trips (1928-1961) pagou com a vida a paixão pela velocidade ao perecer no trágico acidente no GP da Itália de 1981, em Monza, quando disputava o título de campeão com o norte-americano Phil Hill. A Ferrari do alemão enroscou no Lotus de Jim Clark na segunda volta e o carro voou contra o público, matando 14 pessoas além do piloto.

Apesar da tragédia, houve festa em Monza naquele 10 de setembro de 1961. A Ferrari venceu tudo: o grande prêmio, o título de Construtores e o de Pilotos com Phil Hill, segundo piloto da escuderia, 1 ponto à frente de Von Trips (34 a 33). Já a Alemanha teve que aguardar 33 anos, esperar Michael Schumacher nascer para ter um campeão mundial de F-1.LM)

 

 

Piquet Brabham 1993

Piquet, em Kyalami, África do Sul, com o Brabham BMW-turbo

 

A Fórmula 1 saiu de Monza para o GP da Europa, penúltima corrida do campeonato, disputadano circuito inglês de Brands Hatch.

Era oportunidade dele vencer, desmanchar a vantagem de Prost e partir para a grande final no GP da África do Sul, em condições de ser bicampeão.
A classificação não foi das melhores, porque Piquet preferiu acertar o melhor possível o seu BT52 para a corrida. Ele partiu em 4º, atrás dos Lotus de Elio de Angelis e Nigel Mansell e do Brabham de Riccardo Patrrese. A boa notícia era que Alain Prost ia largar em 8º, e, como garantiu Piquet, o francês só o ultrapassaria por cima, porque ele ia fechar todas as portas.
Mas além da disposição, Piquet precisou de muita concentração para vencer Prost, porque o seu carro estava com problemas mo turbo e o francês conseguiu, diminuir uma diferença de 17 para 6 segundos, nas últimas voltas da corrida.
Agora só faltava a batalha final, em Kyalami, no GP da África do Sul. Um grande prêmio, para onde Prost levava as esperanças de tornar-se o primeiro francês campeão da F-1 e Piquet brigava pelo bicampeonato. A contagem ainda era favorável a Prost, 57 a 55.
A grande jogada de Piquet, e seu engenheiro Gordon Murray, foi a tática da corrida. Eles inverteram o reabastecimento de combustível. Ao contrário dos concorrentes, optaram em largar com pouca gasolina e, com o carro mais leve, tentar abrir uma boa diferença, para só então fazer o pit stop.
Bem pensado melhor executado, porque Piquet abriu facilmente 23 segundos de Prost e aí sim, parou nos boxes para completar o tanque. Foi um golpe fatal no francês que, em efetuar o reabastecimento de seu Renault e retornar à pista, estava preciosos 40 segundos atrás do brasileiro.
Com o título garantido, Piquet permitiu-se fazer a generosidade de regalar a vitória a Riccardo Patrese, sem parceiro de Brabham. Mas ao facilitar a passagem do companheiro, o italiano Andrea de Cesaris, que vinha em terceiro com um Alfa Romeo, aproveitou o embalo e também passou o brasileiro. Felizmente, para Piquet, o turbo do Renault de Prost estourou quando ele estava em 5º. Se o francês terminasse na quinta posição, fecharia o campeonato empatado com Piquet em 59 pontos, e, nessa situação, o título seria de Prost, que tinha uma vitória a mais: quatro, contra três do brasileiro.
Piquet, entretanto, não se vexou. E com a consciência da travessura, comemorou:
“ Foi só para provocar o último suspense do ano do meu bicampeonato”.

 

Seanna e Berger Japão 1991

 Ayrton e Berger no pódio do Japão de 1991

Poucas vezes quatro pilotos entraram na pista com táticas tão decoradas. O primeiro capítulo era a conquista da pole position e os participantes eram Senna e Mansell, como atores principais, e Berger e Patrese, como coadjuvantes. Valia o título mundial e a superação de cada um era atributo lógico.

A McLaren ganhou o primeiro rounde dos Williams-Renault. Berger foi pole position, Senna ficou em segundo, Mansell em terceiro e Patrese foi batido por Alain Prost (Ferrari), colocando-se em quinto.

Definida as posições do grid, vinha o segundo capítulo: o jogo de equipe. Se a largada fosse normal, Senna não tomaria a ponta, os pilotos da McLaren iam tentar manter a ordem: Berger deveria liderar e Senna ficaria em segundo, obstruindo qualquer tentativa mais arrojada de Mansell. Era notório na Fórmula 1 que o inglês destemperava-se quando submetido à pressões e, enervá-lo, obrigando-o a ultrapassar Senna, era a primeira provocação.

Bem pensado e melhor feito. Saiu tudo de acordo com o figurino: Berger liderava, Senna amansava o Leão. Depois deles, havia uma outra corrida, a do prêmio de consolação, protagonizada por Alain Prost, Ricardo Patrese, Nelson Piquet (Benetton-Ford), Martin Brundle (Brabaham-Yamanha) e Stefano Modena (Tyrrell-Honda).

A batalha não demorou mais de nove voltas. Nigel Mansell resolveu arriscar tudo e tentou chegar em Senna no final da reta dos boxes a 295 km/h. O brasileiro tomou a curva, e o inglês, surpreendido com a perda do vácuo, descontrolou-se e perdeu-se na poeira da zona de fuga.

Terminava ali, aos 15min59s421/1000 de corrida, a disputa pelo título mundial da Fórmula 1 de 1991. O Leão estava nocauteado e Ayrton Senna era tricampeão.

Com uma tonelada a menos sobre os ombros, Ayrton acomodou-se no banco e felicitou-se: “Afinal, aquela era a oportunidade que eu tanto esperei para me divertir e continuei correndo para vencer, sem maneirar, de pé no fundo, como eu gosto de pilotar”.

Já tricampeão Senna partiu para a diversão. Ultrapassou Berger na 18a volta e acelerou. Fez a volta mais rápida na 31a e, quando cruzou o boxe na 52a, recebeu a placa que avisava que entrara na última volta. Queria mais, porém, em seguida ouviu a voz grave de Ron Dennis pelo rádio de bordo. Senna não compreendeu a mensagem e pediu ao patrão que a repetisse. Mesmo sem clareza entendeu que deveria trocar de posição com Berger, que vinha em segundo. Aí resolveu deixar o Gerhard passar.

Mas o que Ayrton Senna só confessou bem depois é que foi muito difícil renunciar à vitória. Se dissesse que não tinha ouvido ou entendido o apelo do Ron Dennis, todos acreditariam, porque o rádio estava quase inaudível. O próprio Dennis admitiu que havia muita interferência no retorno de Senna. Mas como os diálogos via rádio são feitos meio na base de códigos, para não desconcentrar o piloto, seria suspeito que logo aquela sugestão não fosse entendida.

Foi a primeira vez que Senna abdicava de um triunfo. Por isso, naquele instante, o seu estupendo reflexo bloqueou. O cérebro queria dar a ordem, o coração implorava o contrário e o pé teimava em acelerar mais e mais. Enfim, Ayrton topou violentar-se. Cutucou o freio, aliviou o acelerador, sentiu-se apunhalado, mas deu a vitória ao companheiro. Depois, para se consolar, admitiu: “Berger fez uma bela corrida e merecia a vitória tanto quanto eu”.

 “Já tive muitos momentos felizes na minha carreira”, disse Senna no seu depoimento. “A conquista do primeiro título, em 1988, ou a emoção incrível da vitória em Interlagos este ano. Agora, este terceiro título é muito especial, conquistado em uma luta limpa e justa contra um carro melhor que o meu. Enfim, a melhor temporada de todas que participei.

No dia seguinte, Ayrton, ainda entre feliz e assustado com a grande conquista, me confessou: “Eu não me sinto o maior ídolo brasileiro. Não me sinto uma pessoa tão importante para merecer uma festa durante a noite toda no Brasil. Mas se Deus me deu a felicidade de ser tricampeão do mundo e isso traz alegria a tanta gente, é mais por vontade dele do que obra nossa”.  (LM)

 

 

Prost, a unha da pole position

 

Essa foto do Alain Prost, aí em cima, foi feita com tele 200 mm, diafragma 4/125, para 200 asas, dentro do motorhome da McLaren, no circuito de Paul Ricard, no GP da França de 1988 e publicada na  Quatro Rodas de julho daquele ano.

A foto foi publicada, mas a história não. Captei o flagrante no intervalo da tomada de tempo para a classificação, naquelas batalhas que Ayrton Senna e Alain Prost travavam pela pole position  a cada corrida. Na primeira sessão Senna levou vantagem provisória cravando 1min10s757.

Porém, Prost, que se sentia pressionado por correr em casa, pediu algumas alterações no seu McLaren MP4-4 e outra no seu pé direito. Segundo ele, a unha do dedão estava encravada e feria o dedo vizinho, causando muito desconforto e dor ao acelerar.

Deu certo. Prost conseguiu a pole position cravando a marca espetacular de1min07s589 e bateu o recorde de poles sucessivas  — até ali — marcando a sétima do ano.

Quem rodou fui eu, que queria aquela foto para abrir uma história sobre os bastidores das batalhas de Senna e Prost pela pole position, mas ela acabou como mera ilustração do Grande Prêmio (LM)